sábado, 3 de novembro de 2012

Aspectos da fusão do Likud com “Israel Beitanu”


     Na segunda-feira, dia 29 de outubro, o jornal “Folha de São Paulo” publicou o artigo “Partido do premiê israelense aprova aliança com ultraconservadores”, cujo título pode não ser o mais adequado.
No caso, os ultraconservadores citados são os membros do partido “Israel Beitanu” – que traduzido do hebraico moderno significa “Israel Nossa Casa” – é um partido nacionalista, baseado em “imigrantes russos” como são conhecidos ou chamados de maneira generalizada por lá os imigrantes de toda ex-União Soviética.
     Especialistas identificam-nos como direitistas tais quais os partidos religiosos, em especial o Shas e “União da Torá Judaica” (UTJ), mas as coincidências acabam aqui. Assim como oLikud, tem entre alguns pontos programáticos o fato de serem seguidores doutrinariamente de (Ze'ev) Jabotinsky e do “Sionismo Revisionista”, defenderem a atribuição de mais força à polícia e às forças armadas, terem como moto uma Jerusalém unificada e a defesa da soberania israelense total sobre a cidade.
     Até a ruptura do Likud, pode-se afirmar que este tinha uma visão política mais de centro-direita, ou seja, menos direita do que hoje, tendo-se como parâmetro que o Kadima hoje é a representação centrista em Israel, abrangendo as forças centristas originárias do Likud e Avoda (Trabalhista). O Likud, é um partido de raízes antigas, pré-Estado de Israel, ou pré-fundação do Estado, como preferem outros, apesar de ter sido formado no final dos anos 70. Ele é a consolidação de um agrupamento de partidos médios e pequenos de direita e de centro-direita com grande ligação com a cúpula militar e os principais generais da época (Sharon, Samir e Begin). Ele possui 27 cadeiras no Parlamento.
     Israel Beitanu” é um partido jovem (2000), formado por imigrantes do leste europeu contrários à “liberalidade” oferecida nos acordos de paz com os árabes. São também partidários do moto “sem lealdade, sem cidadania”, ou seja, para os árabes que quiserem permanecer em Israel, devem jurar lealdade ao Estado judeu sionista ou abdicar da cidadania e com isso, sair o país.
     Apesar de sua base ser de “russos”, um dos principais ajudantes do líder Avigador Liberman, é um druso, cuja cultura é baseada na lealdade à terra onde residem (por isso, drusos israelenses eventualmente enfrentam drusos sírios, causando confusão ao resto do mundo). Sua visão de mercado é um pouco mais liberal que o Likud. São também a favor da flexibilização das conversões, para facilitar a vinda de mais descendentes de judeus do leste europeu, pois o Estado só beneficia os imigrantes judeus – sejam filhos de mãe judia, sejam os convertidos por rabinos ortodoxos. Eles possuem 15 cadeiras no Parlamento.
Mas, o que significa esta aliança? Há anos, os governos, sejam do Likud ou do Avoda, são reféns dos partidos religiosos para obter maioria no Congresso. Estes partidos menores demandam exageradamente muito mais do que representam para fazerem parte da base política de governo. Com a união anunciada, forças de mesmo viés político formarão uma aliança de 42 das 120 cadeiras do Knesset (congresso unicameral), ou seja 35% dos assentos, dando mais força política aos “russos”, diminuindo a dependência dos partidos religiosos e em especial, diminuindo drasticamente o fluxo de recursos ao sistema educacional religioso-ortodoxo, a base política destas agremiações.
     Com isso, mais força será dada às entidades seculares, ainda que o Estado se mantenha judeu e sionista. Isto fará com que muitos dos que se declaram estudantes de religião nas escolas (yeshiva) e ganham benefícios do Governo para permanecer nesta situação, sem trabalhar e sem qualificação, sejam obrigados a entrar no mercado de trabalho para sua sobrevivência, gerando um grande descontentamento. Diante do quadro, é pessível perguntar se essa será essa a ruptura da dependência do radicalismo religioso e o retorno das origens semi-laicas que imperaram até o final dos anos 70 em Israel.